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Pesquisa mapeia quase 15 mil moradias atingidas pelas enchentes no Rio Grande do Sul

Estudo aponta que 39 municípios ainda enfrentam os impactos habitacionais das cheias de 2023 e 2024; Vale do Taquari concentra o maior número de casas totalmente destruídas

Uma pesquisa desenvolvida por arquitetas e urbanistas vinculadas à Universidade do Vale do Taquari – Univates e à Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) mapeou cerca de 15 mil moradias atingidas pelas enchentes de 2023 e 2024 em 39 municípios gaúchos.

O estudo revela que, mesmo quase três anos após o início da sequência de eventos climáticos extremos, milhares de famílias ainda enfrentam dificuldades relacionadas ao acesso à moradia definitiva, à reconstrução das comunidades e à ocupação de áreas seguras.

Intitulado “A emergência do habitar no Vale do Taquari: crise climática e direito à moradia no Sul do Brasil”, o artigo foi publicado na edição de julho a outubro de 2026 da revista científica Bitácora Urbano Territorial, da Universidad Nacional de Colombia, em Bogotá.

A pesquisa é assinada pelas arquitetas e urbanistas Bárbara Delazeri e Bruna Zanoni Ruthner, mestrandas em Planejamento Urbano e Regional pela Ufrgs, e pela professora da Univates Jamile Maria da Silva Weizenmann, doutora em Arquitetura.

O trabalho integra a segunda etapa do projeto “Da Cidade à Moradia: resiliência urbana frente à crise climática”, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul (Fapergs) e desenvolvido no Escritório Modelo de Arquitetura e Urbanismo da Univates.

Crise climática amplia déficit habitacional

As pesquisadoras destacam que as enchentes agravaram um problema já existente no Brasil. Conforme dados da Fundação João Pinheiro citados no estudo, o país acumulava, em 2022, um déficit de aproximadamente 6,2 milhões de moradias.

A falta de acesso à terra urbanizada, a especulação imobiliária e a desigualdade social fazem com que famílias mais vulneráveis ocupem áreas periféricas, encostas e margens de rios, locais mais expostos a inundações, deslizamentos e outros riscos ambientais.

No Vale do Taquari, diversas cidades foram formadas às margens do Rio Taquari e cresceram sem planejamento urbano adequado. Entre os municípios que enfrentam inundações recorrentes estão Muçum, Encantado, Roca Sales, Colinas, Lajeado e Estrela.

A situação alcançou uma nova dimensão a partir de setembro de 2023, quando o Rio Taquari atingiu 29,53 metros em Lajeado. Naquele ano, 20 municípios gaúchos decretaram estado de calamidade pública, sendo 11 deles no Vale do Taquari. Em 2024, o número subiu para 95 cidades em todo o Estado.

Vale do Taquari concentra maior destruição

As regiões dos vales do Taquari e do Rio Pardo apresentaram o maior número absoluto de moradias totalmente destruídas entre as áreas analisadas.

Nos 18 municípios mapeados nessas duas regiões, foram identificadas 2.872 unidades habitacionais atingidas, das quais 1.917 ficaram completamente destruídas.

A Região Metropolitana registrou o maior número geral de imóveis afetados, com 6.835 unidades. Desse total, 1.082 foram classificadas como destruídas e 1.749 como interditadas.

Segundo as autoras, os dados demonstram que os impactos ocorreram de formas diferentes em cada região. No Vale do Taquari, foram identificadas áreas onde a força da água eliminou praticamente toda a ocupação existente.

Zonas de arraste

O estudo destaca as chamadas zonas de arraste, locais onde a destruição provocada pelas enxurradas foi praticamente total.

Um dos casos analisados é o bairro Passo de Estrela, em Cruzeiro do Sul. Situada em uma curva acentuada do Rio Taquari, a comunidade teve mais de 500 moradias atingidas. A força da água alterou o curso do rio, atravessou a área urbana, destruiu vias e vegetação e modificou as encostas.

Outro exemplo é o bairro Navegantes, em Arroio do Meio. Das 181 unidades habitacionais mapeadas, 130 foram classificadas como destruídas. Após a enchente, apenas um estabelecimento comercial permaneceu como um dos poucos vestígios da ocupação anterior.

O conceito de zona de arraste foi recentemente detalhado em uma nota técnica elaborada por pesquisadores da Univates e de instituições parceiras, com o objetivo de auxiliar na identificação de áreas submetidas a níveis extremos de destruição.

Famílias continuam em moradias provisórias

Quase três anos após as enchentes de setembro de 2023, parte da população atingida ainda vive em estruturas temporárias, como módulos pré-fabricados de 27 metros quadrados, ou depende de programas de aluguel social.

As pesquisadoras alertam que a permanência prolongada em soluções emergenciais também pode afetar a saúde e a qualidade de vida das famílias. Entre os impactos associados a desastres estão transtornos psicossociais, infecções respiratórias e problemas relacionados à alimentação.

O artigo analisa a reconstrução permanente em sete municípios do Vale do Taquari: Arroio do Meio, Cruzeiro do Sul, Encantado, Estrela, Lajeado, Muçum e Roca Sales.

O mapeamento acadêmico identificou 181 moradias destruídas em Arroio do Meio, 550 em Cruzeiro do Sul, 357 em Encantado, 435 em Estrela, 227 em Lajeado, 80 em Muçum e 405 em Roca Sales.

As quantidades diferem dos números apresentados pelas administrações municipais em pedidos de recursos aos governos estadual e federal. Conforme as autoras, a diferença ocorre porque a pesquisa analisou conjuntos de moradias, enquanto os levantamentos municipais também consideram imóveis isolados, áreas rurais e situações identificadas por laudos técnicos locais.

Reconstrução envolve vínculos comunitários

Para as pesquisadoras, reconstruir as cidades não significa apenas erguer novas casas. A perda da moradia também rompe vínculos territoriais, comunitários e afetivos construídos ao longo de décadas.

O estudo alerta que políticas habitacionais conduzidas apenas sob a lógica da emergência, sem participação das famílias atingidas, podem reproduzir processos históricos de exclusão.

Ao mesmo tempo, foram identificadas formas de adaptação nas moradias provisórias. Algumas famílias construíram cercamentos, anexos, hortas e espaços de trabalho, modificando as estruturas padronizadas para aproximá-las das características de um lar.

Falta de terrenos seguros dificulta reconstrução

Um dos principais obstáculos enfrentados pelos municípios é encontrar terrenos seguros, acessíveis e com infraestrutura para a construção de novos bairros.

A dificuldade é maior em cidades cercadas por rios, morros e áreas sujeitas a inundações ou deslizamentos. Muçum, localizada entre os rios Taquari e Guaporé, é apontada no estudo como a situação mais complexa entre os sete municípios analisados.

Para auxiliar no planejamento, o Governo do Rio Grande do Sul e universidades estão revisando planos diretores municipais, incorporando os riscos hidrológicos e geológicos às diretrizes urbanas e rurais.

Entre as iniciativas está o Zoneamento de Áreas de Risco, já concluído em Muçum. A expectativa é que essas informações orientem a reconstrução habitacional e reduzam a exposição da população a novos desastres climáticos.

Com informações da Universidade do Vale do Taquari – Univates.

Foto: Lucas George Wendt

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